| Foto - TV Globo . |
Na minha avaliação, esse foi um dos pontos positivos da entrevista. O candidato tentou falar sobre temas importantes para o país, como educação, tecnologia, inteligência artificial, segurança pública, empreendedorismo e combate à violência contra as mulheres. São assuntos que fazem parte dos principais desafios do Brasil e que merecem ser discutidos durante uma eleição presidencial.
Cury também procurou transmitir a ideia de que é possível construir uma alternativa ao confronto permanente entre os grupos políticos que dominam o debate nacional. Essa tentativa de se apresentar como uma terceira via pode encontrar espaço entre eleitores cansados da polarização.
Mas uma eleição presidencial exige mais do que boas ideias.
O grande desafio: explicar como fazer
O principal ponto que senti falta durante a entrevista foi justamente o detalhamento de como muitas das propostas seriam colocadas em prática.
É relativamente fácil defender a redução de ministérios, a melhoria dos serviços públicos, o uso de tecnologia na segurança ou o incentivo ao empreendedorismo. O difícil é explicar quanto essas medidas vão custar, quais recursos serão utilizados e quais serão as prioridades do governo.
E é nesse ponto que a entrevista de Cury deixou algumas perguntas sem respostas mais convincentes.
Na economia, por exemplo, o Brasil enfrenta problemas importantes relacionados ao crescimento da dívida pública, às despesas do governo, ao resultado fiscal, aos juros e à necessidade de manter a inflação sob controle. Um candidato à Presidência precisa apresentar não apenas objetivos, mas também um caminho econômico capaz de sustentar essas promessas.
Não basta dizer que vai cortar gastos. É necessário explicar quais gastos serão cortados, quanto será economizado e quais consequências essa decisão poderá trazer para a população.
Tecnologia não pode ser apresentada como solução para tudo
Outro aspecto interessante da entrevista foi a defesa de soluções tecnológicas para problemas públicos.
O Brasil realmente precisa aproveitar melhor a inteligência artificial, a digitalização dos serviços públicos e novas tecnologias. Porém, tecnologia sozinha não resolve problemas estruturais.
Um aplicativo pode facilitar o acesso a um serviço. Um drone pode auxiliar uma operação policial. A inteligência artificial pode aumentar a produtividade do Estado. Mas tudo isso depende de investimento, treinamento, servidores preparados, infraestrutura e, principalmente, planejamento.
A tecnologia precisa ser uma ferramenta de política pública, e não apenas uma promessa de campanha.
Uma candidatura que ainda precisa convencer
Cury conseguiu apresentar uma imagem diferente daquela que domina a política brasileira atualmente. Isso é positivo para o debate democrático. Quanto mais alternativas forem apresentadas ao eleitor, maior a possibilidade de uma discussão baseada em propostas.
Por outro lado, justamente por se apresentar como uma alternativa, ele precisa demonstrar com mais clareza por que o eleitor deveria confiar nele para comandar um país de dimensões continentais como o Brasil.
Ser diferente dos políticos tradicionais não é suficiente.
É preciso demonstrar conhecimento sobre economia, saúde, educação, segurança, infraestrutura, relações internacionais e funcionamento do Estado. E, principalmente, mostrar que as propostas podem sair do discurso e chegar à realidade.
Minha conclusão
A entrevista de Augusto Cury teve um mérito importante: ele tentou apresentar uma candidatura que não estivesse baseada exclusivamente na polarização política.
Vi pontos interessantes em seu discurso, especialmente quando tratou de inovação, educação, empreendedorismo e tecnologia. Porém, também vejo uma distância entre apresentar uma ideia e explicar como ela será executada.
Para mim, Cury saiu da entrevista com uma mensagem clara de renovação, mas ainda precisa responder uma pergunta fundamental ao eleitor brasileiro : como transformar suas propostas em políticas públicas concretas sem comprometer ainda mais as contas do país?
Essa resposta será fundamental para saber se s
ua candidatura pode deixar de ser apenas uma alternativa diferente no discurso e se transformar em uma opção realmente competitiva para a Presidência da República.
No fim das contas, uma eleição presidencial não deve ser decidida apenas por quem fala melhor ou apresenta as ideias mais bonitas. Deve ser decidida por quem consegue mostrar o que pretende fazer, como pretende fazer e quanto isso vai custar ao cidadão.



